sempre atual…infelizmente!

 CINCO QUADRAS

I

Acho uma moral ruim

trazer o vulgo enganado:

mandarem fazer assim

e eles fazerem assado.

II

Sou um dos membros malditos

dessa falsa sociedade

que, baseada nos mitos,

pode roubar à vontade.

III

Esses por quem não te interessas

produzem quanto consomes:

vivem das tuas promessas

ganhando o pão que tu comes.

IV

Não me dêem mais desgostos

porque sei raciocinar…

Só os burros estão dispostos

a sofrer sem protestar!

V

Esta mascarada enorme

com que o mundo nos aldraba,

dura enquanto o povo dorme,

quando ele acordar, acaba.

António Aleixo


é oficial!

estamos preparados para 2012


crítica atrasada(íssima) concerto 19 novembro TNSC

Obras de:

António Pinho Vargas – Onze Cartas para orquestra sinfónica, 3 narradores (pré-gravados) e electrónica ²

Gustav Mahler – Sinfonia n.º 5

Direcção musical – Diego Masson

 

ruidavidairada


sem papas na língua

Bruno Nogueira Oficial
Texto que escrevi para o “Tubo de Ensaio” de amanhã.

Há velhinhos, há velhinhos chatos, há velhinhos que ficam ainda mais chatos, há aguardentes velhas, e depois há o Vasco Pulido Valente. Pois bem, o Vasquinho tem dedicado as suas últimas crónicas ao exercício de destruição do panorama teatral português, fazendo questão, não poucas vezes, de provocar quem lê. Porque no fundo, o Vasco nem sabe bem o que pensa sobre alguns temas, mas sabe que provocando e sendo agressivo quanto baste, chama a atenção para ele e sobrevive para além do seu prazo de validade. E eu vou-me deixar voluntariamente cair na armadilha. Há duas coisas sobre as quais Vasco Pulido Valente não devia falar: uma delas é o teatro, e a outra é agua mineral. E porquê? Porque há muito tempo que não se aproxima de nenhuma das duas coisas. Diz então o Vasquinho, na sua última crónica que, e passo a citar: “tirando antigamente a revista, e hoje o La Féria, não existe, nem nunca existiu um público de teatro em Portugal”. Meu caro, eu lamento desapontá-lo mas não me parece digno de uma pessoa supostamente tão inteligente como o senhor falar de uma coisa que certamente não confirmou. O jornal “Público”, onde você escreve, certamente que lhe pode fornecer informação necessária para não se pôr a jeito. Você é capaz de melhor do que isso. Eu não acredito, mas o seu cão se calhar acredita. Vou-lhe falar a titulo pessoal, assim como você o faz. Devo-lhe dizer que estive três meses com um espectáculo em cena, e que esses três meses estiveram sempre esgotados. Devo-lhe lembrar também que a sala leva 640 pessoas. E lembro-lhe ainda que fazia espectáculo de quarta a domingo. Certamente que será bom a contas para chegar a conclusões. Das duas uma: ou vai avisar essas pessoas que elas não existem, o que até é chato porque vem aí o Natal, ou então responde a uma pergunta simples: sabe como se chama a um conjunto de pessoas que enche uma sala de espectáculos? Público. Vê? Hoje aprendeu uma palavra nova. Não tarda nada consegue ir ao teatro sozinho, como os adultos.
Defende ainda que há 37 anos que não há nenhuma obra decente de dramaturgia em português. Quanto a isso vamos fazer o seguinte: vamos todos fazer de conta que ninguém leu isso, porque uma coisa é ser eu a escrever este texto, outra coisa é ser o José Luís Peixoto, a Luísa Costa Gomes, o Jacinto Lucas Pires, o Miguel Castro Caldas, o Tiago Rodrigues, o Abel Neves, etc. E aí era mais complicado, mas só por um motivo: porque você não ia saber de quem é que estava a receber o texto. Sabe porquê? Porque estas pessoas também escrevem teatro, e para as conhecer, tem de ir lá. Mas não se preocupe que se lhe causar incómodo nós desenrascamos umas luzes e umas roupas e fazemos-lhe uma apresentação na sala de sua casa. Não é a mesma coisa, mas sinto uma sensação de dever cumprido. Mais ou menos como aqueles velhotes do interior que são levados a ver o mar, que até então julgavam ser impossível existir, por ignorância.
Diz ainda que “a gente do teatro ficou muito indignada com a redução dos subsídios, como se os subsídios fossem intocáveis e o teatro merecesse um respeito especial, que não merecem, por exemplo, a saúde, o funcionalismo público ou as pensões”. Vou-lhe aqui abrir outro lenho na sua vasta intelectualidade: o teatro merece um respeito especial. Bem como a saúde, o funcionalismo público e as pensões. E não é por também ser a minha profissão que o defendo, nem por achar os actores “prima donnas”. É porque o teatro, caro Vasco, nunca foi tratado como sendo especial em Portugal. E sempre conseguiu ser. É das poucas profissões em que muitos actores quase pagam para trabalhar, para fazerem peças que também abordam a saúde, o funcionalismo público e as pensões, para que depois o público disfrute e pense ou não sobre isso. E isto pode não ser especial para si que escreve colunas de opinião, mas para quem gosta de teatro, é.
Termina ainda a sua crónica a dizer que “está na altura de acabar com essa ridícula ilusão que em Portugal se chama Teatro”. Sabe Vasco, eu aqui até lhe respondia, mas quando começa a mexer com doenças de cariz mental eu tenho tendência a ficar calado e a respeitar, porque faz-me muita impressão. Resta-me deixar-lhe um abraço, e as rápidas melhoras, que se já nem o seu cabelo quer viver em cima da sua cabeça, imagino a confusão que vai aí por dentro. E sabe: há a inteligência dos estudos e dos livros, e essa eu não ponho em causa, nem o seu currículo me deixa. Mas depois há a inteligência de vida, que não se aprende a ler, mas a sair de casa. E para essa, caro Vasco, lamento mas não me parece que tenha público. Nem mesmo o da revista e do La Féria.

Bruno Nogueira